sábado, 2 de maio de 2009

Da matança à esperança!

“When I was a child
I spoke as a child
I understood as a child
I thought as a child
But when I became a man
I put away childish thing.”

(Quando eu era uma criança
Eu falava como uma criança
Eu entendia como uma criança
Eu pensava como uma criança
Mas quando eu me tornei um homem
Eu deixei de lado as coisas de criança)

Este texto estava junto com uma foto de uma criança com farda de soldado e segurando um rifle no Museu das Reminiscências da Guerra (do Vietnã, ou Americana, como chamam os próprios vietnamitas) e ele é perfeito para começar o post sobre os últimos lugares que visitamos.

As duas últimas cidades visitadas nos trouxeram sentimentos de dúvidas a respeito da raça humana. Como pode um ser humano matar outro ser humano com tamanha crueldade, através de uma guerra infundada ou de um regime ditatorial cruel e extremista?

Em Ho Chi Minh City (ex-Saigon, capital do extinto Vietnã do Sul) os atrativos turísticos respiram a guerra. Começamos pelo Palácio da Independência, que recebeu este nome para celebrar a Independência (até então eram colônia da França), no início da década de 50. Mas, mais importante ainda, foi aqui que, em 30 de abril de 1975, Saigon foi tomada pelas tropas do norte, pondo assim um ponto final em uma guerra que durou quase duas décadas e que matou milhões de pessoas, incluindo idosos, mulheres e crianças.

O Palácio nos deu um informativo geral de como foi a guerra, quem apoiou quem e quais foram os principais acontecimentos, mas foi no Museu das Reminiscências da Guerra que fomos realmente tocadas e colocadas ao extremo dos nossos sentimentos. O Palácio nos deu a história, o museu a realidade.

Através das fotos, fatos e depoimentos expostos ali é inacreditável pensar que tal guerra se deu em plena segunda metade do século XX. É ainda mais inacreditável pensar que, já no século XXI, estes tipos de combates ainda acontecem mundo a fora. E é impressionante como os EUA estão sempre envolvidos em um, se não em mais, deles.

Famílias inteiras destruídas por causa de uma briga de interesses mesquinha e sem respeito à vida. Pessoas que tiveram pernas e braços amputados, sequelas para o resto da vida. Bombas que até hoje continuam sob o solo, que podem explodir a qualquer momento e que representam uma eterna ameaça à sobrevivência daqueles que só querem sobreviver. Bebês que nascem, até hoje, com deformações por causa dos químicos (cientistas dizem que nesta guerra foram utilizados os mais fortes e letais existentes na época) que os EUA usaram na guerra e que continuam afetando as gerações atuais, mesmo depois de mais de 30 anos do fim do combate.

Não queiram ver as fotos destas deformações. São cruéis, extremas e indignas. Não tenho nem como descrever o que vi ali.

Saigon foi nossa última cidade no Vietnã, de onde partimos para o Camboja. Nossa primeira parada no país vizinho foi a capital, Phnom Penh.

Phnom Penh, infelizmente, também respira tragédia. Uma tragédia ainda pior do que a guerra, uma tragédia traduzida em genocídio. Milhares de vidas tiradas sem nenhum motivo aparente, apenas porque uma pessoa decidiu que tinha que ser assim: um ditador.

O Camboja teve uma das ditaduras mais ferrenhas de todo o mundo. Para abreviar a história em si, antigamente, bem antigamente, não existia o Camboja e sim o Império Khmer, que ocupava grande parte do Sudeste Asiático e que foi motivo de muito orgulho para o país, afinal foi nessa época que o Camboja estava no auge. Mas aí veio a invasão francesa e o país se tornou uma colônia, veio a independência e, claro, uma briga para ver quem assumiria o poder.

Em 1975 Pol Pot liderava o grupo vencedor, um grupo que dizia ser a continuação do Império Khmer e de toda a sua glória, um grupo que pregava o comunismo, mas que acabou introduzindo os anos mais sangrentos da história do país. Do Império Khmer eles não tinham nada, ficaram apenas com o nome, ao qual foi acrescida mais uma palavra, talvez para caracterizar o sangue que em vão eles derramaram por quase 4 anos. Foi a época do Khmer Rouge (em português, Khmer Vermelho).

Pol Pot se assemelha muito com Hitler, e sua política com o nazismo. De alguma maneira ele conseguiu um exército que acreditava nas coisas que ele pregava: acelerar o crescimento do país, acabar com as cidades, pois do campo deveria vir tudo o que é necessário para a prosperidade de um povo, auto-suficiência, o vietnamita como inimigo número um, extermínio de qualquer pessoa que fosse vietnamita, que tivesse ligações com vietnamitas ou familiares vietnamitas, extermínio de intelectuais, médicos, ou qualquer um que tivesse um grau de ensino superior.

Não é difícil fazer a relação: a busca de uma raça pura e obediente, livre de qualquer pessoa que fosse inteligente o suficiente para perceber que aquilo era errado.

Infelizmente este regime que durou 3 anos, 8 meses e 20 dias foi suficiente para dizimar um quarto da população do país. E o que é pior: da forma mais cruel possível, talvez pior do que os extermínios em massa nos campos de concentração nazistas durante a II Guerra Mundial.

Visitamos o Tuol Sleng, uma antiga escola primária que era utilizada pelo Khmer Rouge como prisão. Era parte da política deles evacuar toda a cidade e mandar as pessoas para os campos de trabalho no interior do país. Muitos, antes de seguirem para os campos, eram aprisionados nesta escola porque antes tinham que prestar depoimentos, fazer confissões, ou simplesmente porque tinham que esperar mais um pouco antes de irem. Nesta prisão eles eram torturados, espancados e maltratados. Alguns morriam ali mesmo e os que não iam para os campos de trabalho iam direto para Choeung Ek, uma região próxima aonde eram exterminados.

Visitamos também este local que é conhecido como Killing Fields. Não há muito que dizer. As pessoas eram mortas de todos os jeitos imagináveis, mas quase nunca por armas de fogo, pois uma bala era muito cara para ser desperdiçada assim. A pior forma era aplicada aos bebês: os soldados os agarravam de cabeça para baixo pelos pés e os balançavam contra um tronco de uma árvore, mirando especialmente a cabeça, até que morressem.

O sentimento que tive ao estar ali durante 4 horas foi o mesmo que tive quando visitei Auschwitz, o principal campo de extermínio nazista. Um nó na garganta e uma pergunta que não me saía da cabeça: Por quê? Por quê? Por que ainda somos assim?

Houve uma equipe sueca que visitou o Camboja na época a convite do próprio Pol Pot. Nos anos 70 os integrantes desta equipe eram manifestantes ativos contra a guerra do Vietnam, apoiaram o movimento de 68 em Paris e viam na Revolução Chinesa de Mao Tse Tung a resposta para todos os problemas da humanidade. Quando a “revolução” cambojana surgiu pregando um comunismo aparentemente mais justo que o de Mao eles acharam que ali estava a perfeição de concepção humana e resolveram aceitar o convite de visitar o país.

Obviamente durante sua estadia eles foram conduzidos por oficiais do Khmer Rouge, ou seja, foram levados a lugares e introduzidos a pessoas que não fossem mudar o seu jeito de pensar sobre o regime. Acabaram, sem querer, fazendo parte da propaganda que Pol Pot pregava.

Depois de 30 anos um dos suecos que estava nesta equipe mandou todas as fotos da viagem para o Tuol Sleng, com elas foi montada uma exposição do que eles pensavam na época e do que, depois de terem confirmado que aquilo tudo era errado, eles pensavam hoje.

Fazendo um balanço da sua visita na época ele diz:

“...minha experiência me ensinou que existem direitos humanos fundamentais que não são negociáveis:

- Liberdade de expressão e pensamento.
- Liberdade de expressar e praticar qualquer crença religiosa.
- Liberdade de ir e vir.

Eu também espero ter aprendido a ser cético em relação a qualquer tipo de líder que prega ter a “solução final” para a sociedade e a qualquer tipo de solução que diz resolver todos os problemas rapidamente.

Eu não perdi a esperança na possibilidade de um mundo melhor para todos e em uma ordem mundial mais justa do que a que estamos vivenciando hoje.”

Felizmente nem todos são adeptos da guerra, das atrocidades, das injustiças e do desrespeito. Então ainda há esperança, certo?

“Quando o poder do amor superar o amor pelo poder, então haverá paz na Terra.”
- frase de Jimi Hendrix, escrita na porta de um banheiro em Siem Reap, Camboja -

“Imagine all the people living life in peace
You can say I’m a dreamer but Im not the only one”
- John Lennon -

Um comentário:

Melnic disse...

Jujuba! Um comentário. Essa música do Lennon fala da unicidade de países, de uma pátria de não tenha fronteiras, seja tudo uma única coisa, afinal, qual o sentido de existirem países se não defender intereses de uma minoria?
Felicissimo com suas viagens. Keep walking.

Abraços,

Pir